Quando a lima não regressa inteira do canal...

A fratura de instrumentos durante procedimentos endodônticos constitui um problema clínico relativamente frequente e significativo, gerando desafios consideráveis tanto para profissionais experientes quanto para iniciantes na área. Este artigo proporciona uma exploração detalhada dos mecanismos responsáveis por estas fraturas, analisa as implicações clínicas decorrentes, detalha os métodos mais eficazes de gestão e remoção dos fragmentos instrumentais e aborda estratégias preventivas essenciais para evitar tais complicações. Compreender profundamente estes aspetos permitirá aos clínicos gerir estas situações de forma segura e eficaz.
Mecanismos de Fratura dos Instrumentos
Todos os instrumentos endodônticos modernos são fabricados a partir de ligas de níquel-titânio (NiTi), materiais reconhecidos pela sua capacidade de adaptação e resistência superior comparativamente ao aço inoxidável. No entanto, mesmo estes instrumentos avançados não estão imunes à fratura, ocorrendo principalmente por torção e fadiga cíclica.
Fratura por Torção
A fratura por torção ocorre quando a ponta do instrumento fica presa numa secção estreita do canal radicular enquanto o motor continua a fornecer torque. Esta situação cria um stress mecânico excessivo sobre o instrumento, ultrapassando o seu limite de resistência e levando à sua fratura. Este tipo de fratura é frequentemente previsível através da observação de deformações no instrumento, tais como torções ou alterações na geometria das espiras.
Fratura por Fadiga Cíclica
Contrariamente à fratura por torção, a fadiga cíclica é mais subtil, decorrendo da flexão repetitiva e contínua dos instrumentos em canais radiculares curvos. Este fenómeno induz microfraturas internas progressivas que culminam numa fratura abrupta, sem sinais prévios visíveis, tornando difícil a sua antecipação.
Factores de Risco para Fractura
Existem múltiplos fatores que influenciam a ocorrência de fraturas:
- Técnica de instrumentação inadequada: Pressão excessiva, movimentos bruscos, ausência de preparação prévia dos canais (glide path).
- Velocidade e torque inadequados: Velocidades de rotação elevadas e torque excessivo são fatores de risco especialmente em canais anatómicos complexos.
- Reutilização excessiva dos instrumentos: A utilização repetida resulta num desgaste progressivo que aumenta a suscetibilidade à fratura.
- Complexidade anatómica: Canais radiculares estreitos, curvaturas severas e calcificações representam desafios que aumentam as tensões nos instrumentos.
- Imperfeições superficiais dos instrumentos: Danos prévios, mesmo pequenos, aumentam consideravelmente a probabilidade de fratura.
Consequências Clínicas das Fraturas dos Instrumentos Endodônticos
As fraturas de instrumentos podem ter um impacto significativo na eficácia do tratamento endodôntico, dificultando ou impedindo a conformação adequada e desinfeção do canal radicular. Contudo, nem todas as fraturas resultam obrigatoriamente em insucesso terapêutico. O prognóstico depende da fase em que a fratura ocorre, do grau de desinfeção do canal anterior ao acidente, localização e tamanho do fragmento fraturado, e da capacidade do clínico para gerir eficazmente a situação.
Gestão Clínica das Fraturas de Instrumentos
Perante uma fratura instrumental, os seguintes passos devem ser tomados:
- Comunicação eficaz com o paciente: Explicação clara sobre o incidente, suas consequências clínicas potenciais e opções de tratamento disponíveis.
- Localização e avaliação precisa do fragmento: Recorrer a técnicas de imagem avançadas, como radiografia periapical digital e tomografia computorizada de feixe cónico de alta resolução, e microscopia operatória, para determinar com precisão a posição do fragmento e avaliar a viabilidade da sua remoção.
Estratégias de Abordagem de Fragmentos Fracturados
Diversas estratégias estão disponíveis para a resolução eficaz e segura de um caso endodôntico onde tenha ocorrido uma fratura de instrumento:
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Microcópio operatório: O uso do microscópio operatório é fundamental para a visualização e remoção precisa de fragmentos. Proporciona iluminação adequada e ampliação, permitindo identificar a localização exata do fragmento e minimizar a remoção desnecessária de dentina.
- Técnica de bypass: Consiste em ultrapassar o fragmento com limas manuais finas, criando um novo caminho ao longo do canal. Esta abordagem conservadora é eficaz quando a remoção do fragmento apresenta riscos elevados.
- Ultrassons: Técnica frequentemente utilizada devido à sua eficácia em fragmentos mais acessíveis.
- Tubos extratores: Instrumentos como o Masserann e iRS, adequados para fragmentos posicionados em canais menos complexos.
- Instrumentos manuais e pinças microcirúrgicas: Úteis em situações específicas, especialmente para fragmentos maiores e superficialmente localizados. São exemplos a pinça de Stieglitz, ou o Zumax extractor.
- Sistemas de loop metálico: Estes sistemas de metal utiliza fios ortodônticos de Niti ou aço inoxidável finos, em dispositivos desenhados para o efeito, que permitem agarrar o fragmento com recurso a um pequeno laço de metal, e tracioná-lo para fora do canal. Quando combinada com ultrassom, esta abordagem minimamente invasiva é eficaz na remoção de fragmentos em canais retos ou ligeiramente curvos. São exemplos deste sistema o EndoCowboy, FragRemover, BTRpen, etc.
- Formação contínua dos profissionais: A abordagem de instrumentos fraturados é considerada de alto grau de dificuldade, e por isso requer, para além dos meios e instrumentos próprios, a obtenção de formação e treino específicos, que quando aliados à prática e experiência, permitirão a resolução destes casos de forma muito mais segura e previsível. Se não te sentires à vontade com estes casos, só restam duas opções... Fazer formação avançada, ou referenciar o caso a um especialista em Endodontia.
A escolha da técnica adequada depende de factores como a localização anatómica, a curvatura do canal e as dimensões do fragmento, a experiência do clínico, etc.
Estratégias Preventivas
Para minimizar a incidência destas fraturas, é fundamental:
- Criar um glide path eficaz: Usar instrumentos manuais finos para preparar previamente o canal.
- Gerir cuidadosamente o torque e a velocidade: Utilizar motores que permitam ajustes precisos.
- Inspecionar regularmente os instrumentos: Avaliação meticulosa antes de cada utilização para identificar precocemente quaisquer danos estruturais.
- Substituir instrumentos periodicamente: Estabelecer protocolos rigorosos para substituição após uso limitado.
- Formação contínua dos profissionais: Atualização regular sobre técnicas e materiais endodônticos.
Prognóstico e Decisões Clínicas
A presença de fragmentos fraturados pode nem sempre implicar a necessidade imediata de remoção. Fragmentos integrados num canal radicular corretamente desinfetado e com um bom selamento podem apresentar um prognóstico positivo. Contudo, a decisão clínica deve considerar cuidadosamente fatores como risco de remoção, localização e condição geral do dente afetado. A tentativa heróica de remoção de um instrumento fraturado, quando o caso é demasiado complexo ou não se tem a formação adequada, pode acabar em fratura de mais instrumentos, perfuração radicular, desgaste excessivo de dentina e fragilização estrutural, etc.
Inovações Tecnológicas: Ligas de NiTi com Tratamento Térmico
As novas ligas de NiTi submetidas a tratamentos térmicos apresentam maior flexibilidade e resistência à fadiga cíclica. Estas propriedades reduzem significativamente a incidência de fracturas durante a instrumentação, especialmente em canais com curvaturas acentuadas.
Conclusão
A fratura de instrumentos em endodontia representa um desafio relativamente frequente, mas controlável. A compreensão profunda dos mecanismos envolvidos, juntamente com práticas de gestão clínica rigorosas e estratégias preventivas eficazes, permite minimizar estes incidentes e assegurar um tratamento seguro, eficaz e bem-sucedido. Manter altos padrões clínicos e éticos na gestão destas complicações assegura a confiança dos pacientes e promove resultados positivos no tratamento endodôntico.
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